Será que você deve estar estranhando o título?
Não sei, mas infelizmente não, você não leu errado. A ciência da dor já nos ensinou que muito provavelmente “não estar tudo bem” é a única resposta saudável para o luto e mesmo assim está tudo bem.
Nossa sociedade tem uma questão de estranheza com o luto. Tratamos como uma doença, algo confuso, aterrorizante, que precisa ser posto em ordem e superado o mais rápido possível. Mas o que a gente descobre é que estranho mesmo é a forma da cultura ocidental de lidar com o luto.
Tenho certeza que você, como eu, foi bombardeado por uma narrativa de transformação que exige que encontremos o “lado positivo” na catástrofe. Você já ouviu frases como: “Tudo acontece por um motivo” ou “Pelo menos vocês tiveram algum tempo juntos”?. Por mais bem intencionadas que sejam, a outra parte não dita da frase é sempre a mesma: “então pare de se sentir tão mal”, “bola pra frente”.
Se você perdeu alguém ou passou por uma tragédia, a ciência e o que a gente sabe hoje sobre o atendimento a enlutados diz que a sua dor não é um problema a ser resolvido. Ela é uma experiência que exige cuidado e apoio.
O que você está vivendo é horrível, aterrorizante e insustentável, e a realidade é que é tão ruim quanto você pensa. E é exatamente sobre isso que precisamos falar.
O verdadeiro conforto reside no reconhecimento da dor, e não na tentativa de fazê-la passar.
O luto não é um transtorno. É uma extensão natural do amor. É uma reação saudável e razoável à perda. O fato de ser doloroso não o torna “ruim” ou “errado”. Não caia na armadilha do Culto da Positividade Tóxica, que impõe que qualquer sinal duradouro de perturbação é prova de que você não está “evoluído” o suficiente.
Sua dor precisa de espaço para se desdobrar.
Se não podemos “consertar” a dor, o que fazemos com ela?
Não querer consertar a dor, não significa ser indiferente, mas sim testemunhar a dor diante da verdade imutável que é a incapacidade de mudar a situação.
A resposta para a dor, está em senti-la, encarando-a e dizendo “Eu te vejo”. A dor nesse contexto precisa ser vista como a reação saudável e normal à perda. Ela é intrínseca ao viver e viver, tantas vezes, dói.
Já o sofrimento é sentimento secundário, ele surge quando nos sentimos ignorados, abandonados, ou quando nos culpamos e nos debatemos contra a dor.
Aceitar a realidade e a permanência dessa dor natural é um ato de aceitação radical. A aceitação radical, no contexto do luto, é a disposição de acolher a realidade irreversível da perda, transformando o modo como se vive com a dor, em vez de tentar eliminá-la.
A neurobiologia confirma que o luto afeta nosso sistema fisiológico por inteiro, apetite, sono, pressão sanguínea e, sim, nossa capacidade cognitiva, o que chamamos de “cérebro enlutado”.
O que seriam ferramentas concretas para reduzir o sofrimento e apoiar a dor?
- Gerenciar a ansiedade biológica: neste caso, sua ansiedade não é lógica, é biológica. Seu cérebro está tentando mantê-lo seguro, mas a vigilância constante é exaustiva. Quando a ansiedade for aguda, modifique sua respiração, aumentando o tempo da exalação. Isso alivia o sistema nervoso e interrompe o fluxo de hormônios do estresse.
- Comece a coletar dados sobre o seu luto e mapeie as atividades e interações que aumentam seu sofrimento e aquelas que trazem calma relativa. Isso vai ser importante pra manejar o contexto.
- E nao esqueça de praticar a autogentileza: O luto exige gentileza. Você merece o máximo de cuidado e respeito. Isso significa não se abandonar na dor. Significa dizer NÃO a compromissos sociais exaustivos e SIM a cochilos, por exemplo.
Mas dai você pode estar se perguntando: quanto isso dura, existe caminho após o luto?
Tenho que te dizer que não existe “superação”, não existe volta ao normal. O luto transforma você para sempre. Mas existe um processo de integração. É um processo que se aprende a conviver com a perda, esculpindo uma vida nova ao lado da dor.
Mas é bem provavel que nesse processo você não esteja sozinho. A solidão é uma das crueldades intrínsecas ao luto. É por isso que você precisa encontrar no mundo as pessoas que te entendem. Essas pessoas não oferecem a cura, mas o reconhecimento e o companheirismo.
Em um mundo que tenta constantemente lhe dizer que você está errado, você precisa de pessoas que consigam ficar ao lado do buraco que se abriu na sua vida e não desviem o olhar.
Não importa o que você crie a partir da sua dor, ela não será apagada. Mas o amor é a única coisa que permanece. Inclusive, o luto faz parte do amor. É o amor que sustenta você nesta travessia. E a gente precise lembrar que a gente espera que o amor só esteja no “final feliz”, talvez mais uma narrativa doida da nossa cultura.
Lembre-se: Você não enlouqueceu. A cultura é louca. Você não precisa consertar nada. Apenas precisa de apoio para suportar o necessário.
Escrito por:
Anna Beatriz Carnielli Howat Rodrigues
CRP 16/2307
Título de pós-doutorado em Saúde Mental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Doutora em Psicologia Experimental e Especialista em Psicologia Comportamental Cognitiva pela Universidade de São Paulo, Mestre em Psicologia e Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo.
Dra Bia Howat é idealizadora e apresentadora de um videocast junto com Fernanda Mappa (@fernandamappa.pi) e Pollyana Paraguassu (@pollyanaparaguassu) chamado Invisible (@social.invisible) que vai ao ar no Youtube do Folha Vitória (@folhavitoria).







