Texto original disponível em: https://www.folhavitoria.com.br/cotidiano/capacitismo-a-barreira-invisivel-que-exclui-milhoes/
Capacitismo vai além da falta de acessibilidade: está nas falas, atitudes e estereótipos que excluem pessoas com deficiência da vida em sociedade
Se você parou para contar, saiba que a ciência já mapeou esse cenário: uma pesquisa norte-americana identificou que interagimos, em média, com 20 pessoas com deficiência em nossos núcleos mais significativos, entre família, trabalho e vida social.
Esta pesquisa evidencia que a deficiência não é um evento isolado ou distante, ela é uma experiência humana que, em algum momento, perpassa a vida de todos nós.
Se essa realidade ainda parece invisível para muitos, é porque somos condicionados pelo capacitismo. Longe de ser apenas um termo da moda, a ciência o define como uma ideologia estrutural que classifica seres humanos com base em uma aptidão física ou cognitiva idealizada, estabelecendo uma fronteira arbitrária entre quem é considerado “normal” e quem é visto como “o outro”.
Para romper com essa lógica, a produção científica atual propõe uma virada de paradigma: precisamos substituir a obsessão pela capacidade, que é baseada em padrões normativos e estéticos, pelo foco na funcionalidade individual e social.
Trata-se de reconhecer que cada corpo interage com o mundo de forma única, valorizando a identidade da pessoa com deficiência acima de qualquer rótulo de limitação.
A lei 13.146, 2015, art 4 §1º diz o seguinte: Capacitismo é toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas.
Quando a gente lê a lei assim, de forma nua e crua, pensamos que somos muito pouco ou quase nada capacitistas, mas isso é bem pouco verdade. Inclusive, uma campanha marcante nas redes sociais, liderada por atletas paralímpicos de elite, desafiou a mídia a mudar sua terminologia.
O foco foi corrigir a descrição de atletas das paraolimpíadas de 2024 como participantes em busca de superação, reafirmando sua identidade como competidores de alto nível. Ou seja, entendemos que atletas de alto nível são pessoas sem deficiência, enquanto atletas com deficiência são participantes que superam suas vulnerabilidades.
Atire a primeira pedra quem nunca viu uma pessoa com deficiência trabalhando, estudando e simplesmente vivendo sua vida rotineira e pensou: “Nossa, que exemplo de superação!”. Tenho certeza que parece estranho problematizar algo que parece um elogio, mas pasme! Este pensamento, além de capacitista, pode ser ofensivo.
Quando chamamos alguém de herói apenas por viver a própria vida, estamos tratando essa pessoa como se ela fosse anormal ou inferior. A verdade é que ninguém quer ser um exemplo o tempo todo, as pessoas só querem ter os mesmos direitos e acessos que todo mundo.
Todos nós enfrentamos desafios, e reduzir a experiência de pessoas com deficiência a uma constante luta desconsidera suas outras dimensões, aquela barreira invisível que invalida existências.
Se você busca uma fórmula mágica para acabar com o capacitismo, já te adianto que ela não existe. A promoção de uma sociedade inclusiva é um trabalho de formiguinha, feito no cotidiano.
No Brasil, temos leis e documentos jurídicos que estão entre os mais avançados do mundo, mas fatos mostram que o papel aceita tudo, a realidade, não. A legislação sozinha não consegue apagar atitudes e discursos preconceituosos que estão profundamente enraizados na nossa cultura.
O que podemos fazer, na prática, para combater o capacitismo?
Educar com um novo olhar
Mais do que informar, precisamos desmistificar preconceitos e focar na funcionalidade e na identidade de cada um, em vez de focar apenas no que a pessoa “não consegue fazer”.
Sensibilizar para a responsabilidade coletiva
Criar campanhas de conscientização para mostrar que o capacitismo é uma forma de discriminação e que todos somos responsáveis por construir uma sociedade mais justa e inclusiva.
Respeitar e valorizar o humano
Valorizar as diversas formas de ser e fazer, reconhecendo que cada pessoa tem suas próprias capacidades e limitações.
Ir além das rampas
Promover acessibilidade é garantir que todos ocupem os mesmos espaços e serviços, eliminando barreiras físicas, mas focando principalmente nas barreiras atitudinais e de comunicação que ainda nos separam.
Agir e denunciar
Não podemos tolerar atitudes que invalidam existências; denunciar a discriminação é proteger os direitos fundamentais de todos.
Por fim é sempre importante lembrar que muitas vezes, a barreira não está no corpo da pessoa, mas na falta de rampas, de intérpretes de Libras, de um currículo adaptado ou no nosso próprio preconceito. A verdadeira superação que precisamos talvez seja a social, a fim de validar existências e jeitos de cada um interagir com o mundo.
Referências:
Caldas, C. S. O., Maldonade, I. R., Oliveira, A. P. M., & Niaradi, F. (2025). Capacitismo e a inclusão social da pessoa com deficiência: Uma revisão integrativa. Revista CEFAC, 27(2), Artigo e5824.
Friedman, C., & Owen, A. L. (2017). Defining disability: Understandings of and attitudes towards ableism and disability. Journal of Social Work in Disability & Rehabilitation, 37(1), 1-19. https://doi.org/10.1080/1536710X.2017.1278883
Artigo escrito por Anna Beatriz Carnielli Howat Rodrigues (CRP 16/2307)
Título de pós-doutorado em Saúde Mental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Doutora em Psicologia Experimental e Especialista em Psicologia Comportamental Cognitiva pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Psicologia e Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
Dra. Bia Howat tem um projeto de videocast junto com Fernanda Mappa (@fernandamappa.pi) e Pollyana Paraguassu (@pollyanaparaguassu) chamado Invisible (@social.invisible) que vai ao ar no Youtube do Folha Vitória (@folhavitoria)







