Já vou pedir desculpa porque o texto vai ser longo e na era dos 20 segundos que prendem a atenção, talvez nem todo mundo fique até o final.
O fato é que “personalidade” foi um tema que sempre me interessou, desde a época da faculdade. E dentro da Psicologia, a maioria das teorias buscam explicar sua forma de olhar para a personalidade.
Talvez, a primeira coisa que precisamos conversar é sobre o que é a personalidade. Muitas definições atribuem a personalidade características inatas e que determina o indivíduo a ser quem ele nasceu para ser. Mas será que é assim mesmo?
A partir dos pressupostos da Análise do Comportamento, uma abordagem interacionista, todo comportamento deve ser visto a partir da relação do indivíduo e seu ambiente dentro de um modelo explicativo de 3 níveis de seleção: filogenético (espécie), ontogenético (história de vida), e cultural.
No nível filogenético a gente tem as características anatômicas, nosso repertório inato para responder a estímulos que nos mantém vivos (sugar, apreender etc.) e nossa sensibilidade a aspectos do mundo (responder mais intensamente a barulho, som, etc). No nível ontogenético, temos as experiências que vão me construindo como indivíduo e me conferindo um repertório único. Enquanto no nível cultural envolve a seleção de práticas culturais por meio da interação com o ambiente durante o tempo de vida de um grupo social.
Desta forma, a personalidade também não será um repertório prévio e sim, constituído a partir da interação do indivíduo com o meio. Inclusive a gente diz que a infância é um período importante para o desenvolvimento da personalidade. Se é um período de desenvolvimento desse aspecto, quer dizer que bebês e crianças não têm personalidade… será que é isso mesmo?
A personalidade na psicologia refere-se ao conjunto relativamente estável de padrões de pensamento, emoções e comportamentos que caracterizam um indivíduo ao longo do tempo e em diversas situações. Em outras palavras, a personalidade é a maneira como uma pessoa pensa, sente e age de maneira consistente e distintiva ao longo de sua vida. Então para que a gente defina personalidade, a gente precisa de tempo e constância.
É possível perceber desde cedo que cada bebê é único e tem maneiras próprias de reagir às coisas. Alguns bebês parecem mais alegres, enquanto outros podem ficar mais incomodados em certas situações. Com o tempo, os bebês começam a mostrar emoções mais específicas, como alegria, raiva, surpresa, ansiedade, medo e tristeza. Muitos pesquisadores querem entender como o temperamento das crianças na infância se relaciona com a personalidade quando elas crescem, mas há um desafio em definir exatamente o que são temperamento e personalidade.
Em termos gerais, temperamento seria como as crianças reagem emocionalmente a coisas diferentes. Isso pode ser medido quando são muito jovens e é influenciado principalmente por características herdadas. Com base nestas diferenças herdadas, a Análise do Comportamento traz questões referentes a sensibilidade ao reforçamento que tendem a ser características estáveis ao longo do tempo. Desta forma, a partir deste ponto de vista, a sensibilidade aos reforçadores e punidores irão marcar diferentes tendências comportamentais que serão a base das diferenças das personalidades individuais.
De forma resumida, eu gosto muito da visão de Jeffrey Gray, um autor de Personalidade em Análise do Comportamento. Ele identifica 3 sistemas cerebrais: o Sistema de Inibição Comportamental (SIC), o Sistema de Aproximação Comportamental (SAC) e o Sistema de Resposta ao Risco. Esses sistemas operam de forma interconectada prevendo “estilos de personalidade”, influenciando as escolhas e respostas comportamentais à medida que o indivíduo interage com seu entorno.
- O SIC envolve uma maior sensibilidade à punição e por isso mecanismos que inibem ou suprimem respostas em situações aversivas, funcionando como um mecanismo de autopreservação. O indivíduo apresenta maior comportamento de esquiva e é a base para o “comportamento ansioso”.
- O SAC, por sua vez, envolve uma maior sensibilidade ao reforçamento e por isso motiva o indivíduo a buscar recompensas e reforçadores positivos, impulsionando a exploração do ambiente e a aquisição de recursos. O indivíduo apresenta maior comportamento de aproximação e fuga e é a base para o “comportamento impulsivo”.
- O Sistema de Resposta ao Risco envolve uma maior sensibilidade de Luta-Fuga e por isso envolve mecanismos ativados de percepção de situações de incerteza ou ameaça, preparando o indivíduo para evitar potenciais perigos. O indivíduo apresenta maior comportamento de fuga ou agressão defensiva e é a base para o “comportamento explosivo”.
Esses sistemas vão interagir com o meio e vão formando o que chamamos de personalidade. A Personalidade seria um conceito mais amplo que inclui coisas como hábitos, valores e como as pessoas pensam e reagem em situações sociais. Isso é mais relevante para crianças mais velhas, adolescentes e adultos. Em resumo, o temperamento é algo que podemos notar em bebês e crianças pequenas (até uns 6, 7 anos) e é mais influenciado por fatores biológicos, enquanto a personalidade é uma característica mais ampla que se desenvolve à medida que as crianças crescem e é influenciada por fatores biológicos e ambientais. Muitos psicólogos preferem usar o termo temperamento quando se referem a crianças pequenas, porque ele serve como base para a personalidade que se desenvolverá mais tarde.
Modelo do Big Five – os cinco fatores de personalidade
O Modelo dos Cinco Grandes (Big Five) é a estrutura consensual dominante e bem estudada atualmente na psicologia para descrever a estrutura da personalidade normal. Ele representa uma visão dimensional da personalidade, dividindo-a em cinco grandes eixos ou dimensões contínuas.
Esse modelo oferece uma estrutura abrangente para entender as diferenças individuais, substituindo rótulos categóricos… sim, aqueles de colérico, fleumático e tal, por perfis contínuos que permitem intervenções calibradas.
Cada traço do Big Five representa um continuum de características e possui validade preditiva e estabilidade temporal relativa:
- Neuroticismo: Reflete a tendência a experimentar emoções negativas, como ansiedade, depressão, irritabilidade, vulnerabilidade e insegurança. Pessoas com alto Neuroticismo tendem a ser mais ansiosas e emocionalmente instáveis, sendo esta a dimensão mais consistentemente elevada em muitos transtornos de personalidade (TPs).
- Extroversão: Envolve o grau de sociabilidade, assertividade, entusiasmo e busca por novos estímulos e interações sociais. É uma dimensão que funciona como marcador discriminativo.
- Abertura à Experiência (Abertura): Diz respeito à curiosidade, imaginação, criatividade e interesse por novidades e experiências intelectuais. Pessoas com alta Abertura são curiosas, enquanto as de baixa Abertura podem preferir a rotina.
- Amabilidade (Agreeableness): Refere-se à qualidade de ser cooperativo, confiável, altruísta e gentil nas relações interpessoais. A Amabilidade reduzida é geralmente observada em vários TPs (como Paranoide, Antissocial e Narcisista), indicando antagonismo e dificuldades interpessoais.
- Conscienciosidade: Relacionada à autodisciplina, organização, responsabilidade e orientação para objetivos. Pessoas com alta Conscienciosidade são cuidadosas e confiáveis.
Relação com a Patologia da Personalidade
O Big Five é amplamente utilizado na conceptualização clínica, pois a pesquisa demonstra que os Transtornos de Personalidade (TPs) podem ser entendidos como variantes extremas e disfuncionais desses traços normais.
Uma meta‑análise (Saulsman & Page, 2004) integrando 15 amostras independentes mapeou, para cada um dos 10 transtornos do DSM, os perfis de traços nos Cinco Grandes. O estudo encontrou perfis do Big Five previsíveis para cada transtorno, coerentes com seus critérios diagnósticos que são descritos lá no manual diagnóstico, apoiando o uso do modelo dos cinco fatores para conceptualização clínica dos transtornos de personalidade. Os traços mais proeminentes que subjazem a um grande número de TPs são o Neuroticismo elevado e a Amabilidade reduzida (negativa), refletindo malajustamento emocional e antagonismo:
- Neuroticismo: a dimensão mais consistentemente elevada em muitos transtornos (paranoide, esquizotípico, borderline, evitativo, dependente), refletindo afetos negativos e instabilidade emocional.
- Amabilidade: geralmente reduzida em vários transtornos (paranoide, esquizotípico, antissocial, borderline, narcisista), indicando antagonismo/interações interpessoais difíceis.
- A Extroversão, por outro lado, ajuda a discriminar entre TPs. Por exemplo, é alta em perfis mais gregários (Histriônico, Narcisista) e baixa em perfis mais retraídos (Esquizoide, Esquizotípico, Evitativo).
Mas como a Genética e o Ambiente se relacionam com a Personalidade?
É sempre muito complicado atribuirmos características do comportamento humano a questões estritamente biológicas ou estritamente culturais. Não querendo trazer uma visão purista da questão, mas se a gente pensar, até os recém-nascidos já possuem experiências relacionadas ao que viveram no útero materno e isso já enviesa o biológico e já o traz para aspectos culturais.
O ser humano não é o único animal que produz sistemas sociais organizados, mas sem dúvidas ele se destaca dos demais seres vivos pela sua cultura altamente especializada, que se baseia na transmissão de informações através de gerações, no uso da linguagem e em representações simbólicas. E essa complexidade nos torna independentes para muitos aspectos, tais como acumulação de conhecimento, compartilhamento de práticas e rituais, aprendizagem e instruções, incorporação de novas aprendizagens, atuação sobre as forças naturais, etc. Mas também nos torna extremamente dependentes de aspectos culturais. O modo de vida cultural impõe exigências significativas, realçando a importância das relações sociais e da inteligência.
O cérebro dos humanos evoluiu de maneira incrível. Ele ficou maior ao longo do tempo e se tornou bem especializado. Se compararmos com os cérebros dos primatas do mesmo tamanho que a gente, o nosso cérebro é mais ou menos três vezes maior. Além disso, tem uma coisa chamada “especialização hemisférica” no nosso cérebro, que é bem diferente dos outros primatas. Essas mudanças no cérebro estão ligadas à nossa evolução cultural e ajudam a entender por que somos tão ligados à cultura. Mas é importante notar que, na evolução, uma mudança numa coisa afeta outras coisas, ou seja, não há uma especificidade na qual uma estrutura irá ser afetada por apenas uma característica, a complexidade é bem maior que isso.
A evolução dos humanos trouxe mudanças importantes na convivência, relação e desenvolvimento. Começamos a ter mais de uma geração convivendo ao mesmo tempo, as crianças passaram a depender mais dos adultos, os laços afetivos passaram a existir de forma mais marcada, e a nossa forma de viver em grupo também mudou. E para isso tudo acontecer, sem dúvida, o Homo sapiens contou muito com o desenvolvimento da linguagem. Precisou haver uma maneira especial de fazer sons, o que nos ajudou a falar. Mas só ter um jeito de fazer sons não seria suficiente. A linguagem precisa de muitas coisas, como entender coisas, conversar com os outros e isso foi evoluindo enquanto vivíamos juntos. A linguagem é super importante para nossa cultura porque nos ajuda a nos comunicar e compartilhar ideias. Mas, ao mesmo tempo, está enraizada em nossa biologia, como nosso cérebro funciona e como fazemos os sons. Bebês não aprendem a falar porque os adultos ensinam um código secreto, eles nascem com uma estrutura natural para aprender a linguagem. As línguas humanas são criadas, mantidas e transformadas pelas pessoas que as falam, e a diversidade de línguas mostra como nossa habilidade de falar evoluiu ao longo do tempo. Então, resumindo, nossa biologia e cultura caminharam juntas nessa história, cada uma influenciando a outra de maneiras interessantes.
Sensibilidade ao Ambiente Extremo e o Fator Sombrio (D)
A personalidade humana, embora definida como um conjunto relativamente estável de padrões de pensamento, emoções e comportamentos, não é um destino imutável, mas sim um repertório constituído a partir da interação do indivíduo com o meio. A pesquisa etiológica moderna reconhece que fatores genéticos e socioecológicos modelam o desenvolvimento de traços de personalidade. Um dos construtos mais relevantes nesse campo de estudo é o Fator Sombrio de Personalidade (D).
O que vem a ser esse fator?
O Fator Sombrio de Personalidade (D), ou Dark Factor of Personality, representa um núcleo comum subjacente a diversos traços de personalidade aversivos ou “sombrios”, que refletem questões relacionadas a baixa amabilidade, como antagonismo, desconfiança e e interações interpessoais difíceis
Em sua definição central, o fator sombrio carrega uma tendência geral a maximizar o benefício individual, mesmo que isso implique desconsiderar, aceitar ou malevolamente provocar prejuízo para os outros, sendo essa conduta frequentemente acompanhada por crenças que servem como justificativas.
Ampliando o nosso entendimento sobre personalidade, o fator sombrio tem tudo a ver com os transtornos de personalidade, já que eles são vistos como variantes extremas das dimensões normais de personalidade do Big Five.
A Proliferação de Traços Sombrios em Ambientes Adversos
Essa “essência aversiva da personalidade” demonstra ser altamente sensível ao ambiente em que o indivíduo se desenvolve e interage.
Em termos individuais, gosto muito da explicação da DBT para como se dá o desenvolvimento do transtorno de personalidade borderline, uma condição que se manifesta por instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nas emoções, além de impulsividade. A Teoria Biossocial fornece o modelo explicativo de como essa instabilidade crônica, que é o cerne do TPB, se desenvolve: o ambiente invalidante não compreende ou critica as emoções da pessoa, o que impede que ela aprenda a regular sua intensa vulnerabilidade emocional. Assim, o padrão duradouro de desregulação emocional e comportamental é, para a DBT, a própria manifestação do transtorno de personalidade. O modelo se encaixa na visão mais ampla de que a origem dos TPs é multifatorial, envolvendo fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Em termos sociais, o estudo de traços sombrios em ambientes adversos prevê que condições sociais aversivas (ASC) contribuem para a proliferação do D nas sociedades. Essas condições são caracterizadas por disfunções estruturais, como desigualdade econômica, corrupção, pobreza e violência.
Uma robusta investigação conduzida por Zettler et al. (2025), forneceu fortes evidências empíricas para essa conexão. O estudo envolveu uma amostra expressiva de mais de 1,7 milhão de participantes em 183 países e 144.576 indivíduos nos 50 estados norte-americanos. A análise revelou uma associação significativa e consistente entre as condições sociais aversivas (ASC), que incluem desigualdade econômica, corrupção, pobreza e violência, e os níveis médios da personalidade sombria (D) na população. Em essência, sociedades que exibem maior grau de disfunções estruturais tendem a registrar níveis mais elevados de D entre seus membros.
Em cenários caracterizados pela escassez de recursos, normas éticas frequentemente desrespeitadas e corrosão da confiança social, comportamentos exploradores e egoístas são favorecidos. Nesses ambientes, tais condutas não apenas se tornam adaptativas, mas também socialmente reforçadas. Essa perspectiva se alinha com as interpretações evolucionistas, que veem os traços sombrios como estratégias de vida orientadas para a maximização do ganho em contextos imprevisíveis e altamente competitivos. Consequentemente, o Fator Sombrio (D) atua nesses ambientes como uma estratégia de autopreservação do indivíduo contra a potencial exploração.
O meio social extremo não apenas reforça comportamentos egoístas, mas também fomenta crenças competitivas, desconfiadas e sem normas que são essenciais para o D. O indivíduo, ao testemunhar a violação constante de normas éticas, passa a perceber o comportamento aversivo como comum, funcional e justificável, criando uma retroalimentação onde a estrutura social disfuncional catalisa a manifestação de traços manipuladores e oportunistas. Dessa forma, os achados da pesquisa de Zettler e colaboradores (2025) sugerem que o D é um indicador coletivo de condições estruturais que desafia a noção clássica de que os traços são determinados apenas por fatores internos.
O que isso tudo tem a ver com os Transtornos de Personalidade e quais são as evidências da Plasticidade e Possibilidade Terapêuticas?
Os transtornos de personalidade (TPs) constituem um dos maiores desafios contemporâneos da saúde mental, tanto por sua alta prevalência quanto pelo impacto profundo na qualidade de vida, nos vínculos interpessoais e na funcionalidade social e ocupacional. Estima-se que entre 8 e 12% da população mundial apresente algum tipo de TP, embora a prevalência varie conforme fatores culturais, econômicos e metodológicos (Winsper et al., 2020; Tyrer et al., 2015).
Os TPs são definidos como padrões duradouros e inflexíveis de pensamento, emoção e comportamento que se desviam significativamente das expectativas socioculturais, manifestando-se desde a adolescência ou início da vida adulta. Esses padrões afetam especialmente quatro domínios psicológicos centrais: percepção e interpretação da realidade (de si e dos outros), regulação afetiva, relações interpessoais e controle dos impulsos.
Tradicionalmente, os TPs são agrupados em três categorias ou clusters: o Cluster A, composto pelos tipos paranoide, esquizoide e esquizotípico, caracterizados por padrões excêntricos ou distantes da realidade social; o Cluster B, que abrange os transtornos antissocial, borderline, histriônico e narcisista, definidos por impulsividade, instabilidade e traços dramáticos; e o Cluster C, que inclui os transtornos evitativo, dependente e obsessivo-compulsivo de personalidade, marcados por medo, rigidez e evitação.
Durante décadas, os TPs foram considerados entidades essencialmente estáveis e resistentes à mudança, sustentando uma visão pessimista sobre seu prognóstico. Entretanto, pesquisas recentes vêm desafiando essa perspectiva, revelando evidências consistentes de plasticidade e melhora ao longo do tempo. Uma meta-análise abrangente publicada em 2023 (d’Huart), com 40 estudos longitudinais e mais de 38 mil participantes, investigou a estabilidade diagnóstica e dimensional dos TPs.
Os resultados indicaram que, embora 56,7% dos participantes mantivessem algum diagnóstico de TP, apenas 45,2% permaneceram com o diagnóstico de transtorno de personalidade borderline ao longo do seguimento. De modo geral, observou-se diminuição significativa dos critérios diagnósticos em grande parte dos transtornos, com exceção do antissocial, esquizoide e obsessivo-compulsivo, que tendem a apresentar maior persistência.
Esses achados reforçam a concepção de que os TPs, embora envolvam traços duradouros, não são estáticos. Mudanças espontâneas podem ocorrer como parte do desenvolvimento humano, influenciadas por fatores biológicos, relacionais e contextuais. A neuroplasticidade, entendida como a capacidade do cérebro de reorganizar conexões sinápticas e circuitos funcionais, constitui um dos principais fundamentos neurocientíficos para compreender essa possibilidade de mudança. Ela sugere que experiências interpessoais, intervenções psicoterápicas e contextos ambientais seguros podem promover reorganizações adaptativas em padrões cognitivo-afetivos previamente disfuncionais.
Do ponto de vista clínico, reconhecer a plasticidade dos TPs tem implicações terapêuticas relevantes. Modelos de tratamento baseados em evidências, como a Terapia Comportamental Dialética (DBT), a Terapia Baseada em Esquemas e a Terapia Focalizada na Transferência, demonstram eficácia em reduzir sintomas e melhorar o funcionamento global. Mais do que modificar traços de personalidade em si, essas abordagens favorecem o desenvolvimento de habilidades de regulação emocional, tolerância ao estresse e mentalização, abrindo espaço para trajetórias mais estáveis e integradas de identidade.
Assim, ao invés de compreender os transtornos de personalidade como prisões estruturais, pode-se concebê-los como modos de funcionamento marcados por rigidez, mas ainda suscetíveis à transformação. A integração entre achados empíricos sobre plasticidade e estratégias terapêuticas centradas na mudança relacional e comportamental aponta para uma abordagem mais esperançosa e realista, alinhada à complexidade do desenvolvimento humano e às possibilidades de crescimento ao longo da vida.
Referências
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Escrito por:
Anna Beatriz Carnielli Howat Rodrigues
CRP 16/2307
Título de pós-doutorado em Saúde Mental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Doutora em Psicologia Experimental e Especialista em Psicologia Comportamental Cognitiva pela Universidade de São Paulo, Mestre em Psicologia e Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo.
Dra Bia Howat é idealizadora e apresentadora de um videocast junto com Fernanda Mappa (@fernandamappa.pi) e Pollyana Paraguassu (@pollyanaparaguassu) chamado Invisible (@social.invisible) que vai ao ar no Youtube do Folha Vitória (@folhavitoria).







